XXXIII domingo do Tempo Comum

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17 novembro 2013
Reflexões sobre as leituras
de
LUCIANO MANICARDI
Há tempos difíceis e obscuros em que se pede ao crente, apenas, que resista, que permaneça firme, que proteja a sua interioridade, que mantenha a fé, que salvaguarde a sua própria humanidade

  17 novembro 2013
Reflexões sobre as leituras
de
LUCIANO MANICARDI

Ano C

  Ml 3,19-20a; Sal 97; 2Ts 3,7-12; Lc 21,5-19

 A mensagem escatológica deste domingo compreende o anúncio da proximidade do dia do Senhor que será de julgamento para uns e de salvação e cura para outros (I leitura) e uma exortação à perseverança e à vigilância de Jesus para com os seus discípulos e através destes aos futuros crentes, para que não se deixem tomar pelo medo e pela angústia do fim, diante de acontecimentos trágicos e de perseguições (Evangelho). Longe de ser sinal de um pretenso fim do mundo, estes acontecimentos devem ser acolhidos como oportunidade de martyría (Lc 21,13), de testemunho. No texto evangélico odierno não se trata do fim do mundo, mas do que acontece "primeiro” (Lc 21,9.12), na história, em que surge o tempo de uma perseverança exigente.

Lucas sublinha a diversidade do olhar que Jesus, de um lado, e "alguns", do outro, têm sobre o Templo. Se estes desconhecidos e  inomináveis admiram a dimensão estética das "belas pedras" (Lc 21,5) do Templo e os dons votivos que o adornam, Jesus vê com um olhar desencantado e lúcido o fim próximo. Como o Templo (e o seu sistema de ofertas e de santificações), também todas as construções e realizações mais santas e espirituais do homem, são finitas. Não são elas que devem ser objeto do olhar e da atenção, mas sim o Senhor que vem e de quem elas, apenas devem ser sinal. 


Nos tempos da história o cristão deve treinar-se para o discernimento. Antes de mais o discernimento para fazer frente ao engano. Importa reconhecer os "muitos" que se apresentarão como detentores da verdade e portadores da revelação, que usurparão o título apenas cristológico "Eu sou" (Lc 21,8) para induzir qualquer um a segui-lo. O espaço religioso e eclesial é também cenário de enganos e de imposturas que se manifestam, antes de mais, com a sua pretensão de verdade absoluta e indiscutível. O cristão é chamado a discernir e a saber dizer "não": a instrução "não os seguis" é tão forte como aquela que tantas vezes Jesus dá: "Segui-me". Desconfie-se sempre de quem pensa saber qual é a vontade de Deus sobre as pessoas, ousando impô-la.

Por outro lado trata-se de discernir guerras e agitações históricas, tais como catástrofes e desastres naturais, sem os pensar como eventos anunciadores do fim do mundo (cf. Lc 21,9-11). O discernimento aqui é luta ativa contra o medo e o potencial inibidor do terror (“Não vos aterrorizareis”: Lc 21,9). E conduz à humildade de quem reconhece que o próprio tempo não é a totalidade do tempo, que o próprio acontecimento não é a totalidade da história e que o próprio fim não coincide com o fim de um tempo e de uma história que superam cada homem.


A história torna-se assim para o crente o lugar de exercício da perseverança e da paciência. Perseguições e traições, hostilidades até da parte de amigos e familiares, poderão marcar a vida daqueles que aderirem a Jesus, mas graças à sofrida perseverança esses poderão guardar a sua alma (cf. Lc 21,19). Enquanto experimentam o fim de relações e de fidelidades, enquanto anteveem o seu próprio fim, esses poderão conhecer a salvação das suas próprias vidas e tomar a sua alma como despojo, da batalha que a vida e a história lhes impuseram (cf. Jer 45,5).

Há tempos difíceis e obscuros em que se pede ao crente, apenas, que resista, que permaneça firme, que proteja a sua interioridade, que mantenha a fé, que salvaguarde a sua própria humanidade, que preserve a sua alma do caos e da confusão. Isto só, já será como um grão de trigo que, caído por terra, dará o seu fruto. Dietrich Bonhoeffer escreveu em tempos particularmente duros e difíceis, do cárcere de Tegel em 1944: “Nós deveremos salvar, mais do que plasmar a nossa vida, esperar, mais do que projetar, resistir mais do que avançar. Mas nós queremos preservar-vos a vós, jovens, à nova geração, a alma com cuja força vós devereis projetar, construir e plasmar uma vida nova e melhor". A perseverança que salva a alma não é, pois, nada de intimo, mas sim um ato de responsabilidade histórica de quem ousa pensar mais além e para lá de si.

Reflexões sobre as leituras
de
LUCIANO MANICARDI

Comunidade de Bose
Eucaristia e Parola
Textos para as Celebrações Eucarísticas - Ano C
© 2009 Vita e Pensiero

 

XXVIII domingo do Tempo Comum

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13 outubro 2013
Reflexões sobre as leituras
de
LUCIANO MANICARDI
Diante do dom de Deus, não há nada mais a fazer do que agradecer, tornarmo-nos eucarísticos (cf. Col 3,15), vivermos em ação de graças.

Ano C

2Re 5,14-17; Sal 97; 2Tm 2,8-13; Lc 17,11-19

A primeira leitura apresenta a cura de Naaman, leproso estrangeiro, pelo profeta Eliseu e o Evangelho narra a cura, por Jesus, de dez leprosos dos quais apenas um, estrangeiro (samaritano) agradece. O tema da ação de graças, da capacidade eucarística, liga as duas leituras. Naaman, que queria pagar a Eliseu a sua cura, mas é por ele impedido, obtem um pedaço de terra de Israel para poder venerar o Senhor, Deus de Israel. A gratidão aparece assim na sua dimensão teologal. O profeta desaparece diante do Senhor, verdadeiro autor da graça, e Naaman remete a Deus o seu agradecimento. Também o Evangelho apresenta a dimensão eucarística da fé: o agradecimento do samaritano a Jesus  (cf. Lc 17,16) exprime a sua fé (cf. Lc 17,19).
O texto de 2Re mostra a dificuldade, sobretudo para um homem importante, rico e poderoso como Naaman, de reconhecer-se devedor: cobrir de dinheiro e bens quem o beneficiou significaria “pagar”, tornar o outro grato e assim não perder a grandeza e a própria imagem de homem que "não deve nada a ninguém". A gratidão é difícil e exige deixar morrer um certo narcisismo para integrar as fileiras daqueles que sabem que são perdoados.


A dificuldade em agradecer aparece também no Evangelho: dos dez leprosos curados, apenas um volta atrás para agradecer a Jesus. É aquele que se reconheceu curado (cf. Lc 17,15). É preciso respeito (no sentido etimológico de olhar para trás: respicere) para alcançar o reconhecimento do que aconteceu e consequentemente a gratidão. Olhar para trás é também um trabalho de memória e esta é parte integrante da Eucaristia como do gesto humano da gratidão. Damo-nos conta, muitas vezes, já depois de muito tempo, daquilo que devemos a pessoas que encontrámos no passado e que deixaram em nós marcas importantes. O Samaritano soube reconhecer-se curado, soube criar uma distância entre si e si e reconhecer o que veio até ele do Senhor. Entrou na salvação voltando atrás, mudando de estrada, ou seja, impondo a si próprio um movimento de conversão. Caminhar para Jesus sem ir ao Templo, aos sacerdotes, para que a cura seja  confirmada, significa confessar que a presença de Deus encontrou em Jesus o seu templo, a sua manifestação: é agradecendo Jesus que o Samaritano glorifica Deus (cf. Lc 17,18). E Jesus pronuncia o oráculo da salvação nos seus encontros: “Levanta-te e vai. A tua fé te salvou” (Lc 17,19). O verdadeiro culto está na relação com o Senhor Jesus Cristo: é diante d'Ele que o Samaritano se prostra e dá graças.


As palavras de Jesus sobre a fé do Samaritano significam que a salvação é real se a celebramos: o dom de Deus é realmente acolhido quando sabemos agradece-lo, ou seja, quando o reconhecemos e confessamos a sua origem. Apenas na ação de graças o dom é reconhecido como dom. Por isso o coração do culto cristão chama-se Eucaristia: diante do dom de Deus, não há nada mais a fazer do que agradecer, tornar-mo-nos eucarísticos (cf. Col 3,15), vivermos em ação de graças.

Todos curados mas apenas um salvo. Esta é a situação dos dez leprosos que Jesus encontrou. Na revelação bíblica, a cura evangélica e a salvação são muitas vezes associadas e a salvação é significada e antecipada pela cura. Hoje, diante da desvalorização cultural de uma salvação divina, a relação salvação - cura é invertida e a salvação é transformada numa dilatação de si, aqui e agora, cura de todos os aspetos físicos e psíquicos da existência, para que se possa viver uma vida “expandida”, “plena”. Mas a descoberta da dimensão terapêutica da fé não pode terminar numa escravização do espiritual às necessidades do indivíduo e não pode esquecer a dimensão trágica da existência, o não-curado, o doente, desde o nascimento, o sofrimento inocente, o mal que não acaba. Não pode esquecer a cruz de Cristo.  
 
 
Reflexões sobre as leituras
de
LUCIANO MANICARDI

Comunidade de Bose
Eucaristia e Parola
Textos para as Celebrações Eucarísticas - Ano C
© 2009 Vita e Pensiero

 
 

XXX domingo do Tempo Comum

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27 outubro 2013
Reflexões sobre as leituras
de
LUCIANO MANICARDI
Jesus nunca diz ‘Não se deve fazer’. O cristianismo não é feito de proibições: é vida, fogo, criação, iluminação

  27 ottobre 2013
Riflessioni sulle letture
di
LUCIANO MANICARDI

Anno C

  Ger 38,4-6.8-10; Sal 39; Eb 12,1-4; Lc 12,49-57

La vocazione profetica porta Geremia a incontrare opposizioni fino a essere consegnato in mano di altri uomini: il suo destino è nelle mani di altri; la sua vita o la sua morte dipendono da altri: quella verità così essenziale per cui la nostra vita è legata inscindibilmente ad altri e viviamo grazie agli altri, trova in Geremia gettato in prigione e da lì fatto risalire una attestazione drammatica e dolorosa (I lettura). Il cammino di Gesù di obbedienza al Padre è anche cammino di salita verso Gerusalemme, verso l’immersione (“battesimo”) che lo attende e che egli riceverà quando sarà consegnato nelle mani dei peccatori che lo maltratteranno e le metteranno a morte. Gesù vive l’abbandono nelle mani di Dio conoscendo il tragico destino di chi cade in balia degli uomini e della loro malvagità (vangelo).

Annunciato dal Battista come colui che “battezzerà in Spirito santo e fuoco” (Lc 3,16), Gesù, nei giorni della sua vita terrena, sperimenta l’incompiutezza della sua missione e il caro prezzo che essa comporta. Lo Spirito che scenderà a Pentecoste immergerà i discepoli nel fuoco dello Spirito, ma questo avverrà solo dopo la sua morte e resurrezione; inoltre Gesù stesso riconosce di dover passare attraverso il fuoco dell’immersione nella morte cruenta. Perché l’incendio del Regno divampi occorre prima che egli stesso sia bruciato e consumato da tale fuoco. Venuto per narrare il Dio che è “fuoco divorante” (Dt 4,24), per suscitare la passione per il Regno, per sconvolgere le vite con il soffio impetuoso dello Spirito, per far ardere i cuori con la sua parola bruciante, Gesù incontra coloro che sanno “spegnere lo Spirito”, far tacere la profezia, mortificare la follia per il Signore.


Non c’è altra via, per lui, che ardere e consumarsi egli stesso al fuoco della sua passione per Dio e del suo desiderio di dare comunione e vita agli uomini. Egli stesso diviene fuoco: “Chi è vicino a me è vicino al fuoco, chi è lontano da me è lontano del Regno”, recita un detto di Gesù tramandato da Origene. Il fuoco dona calore e luce ma, nel mentre, consuma e divora. Da quella morte, nasce la nostra vita. Il fuoco che Gesù è venuto a portare e gettare sulla terra è passione di amore e passione di sofferenza. Del resto, chi può conoscere il segreto del fuoco se non chi se ne lascia consumare?

Per quanto enigmatiche, le parole di Gesù sul fuoco che egli è venuto a portare ricordano alla nostra stanca cristianità e alle nostre vecchie chiese che il cristianesimo è vita e fuoco, passione e desiderio, avventura e bellezza. Ha scritto il patriarca di Costantinopoli Atenagora: “Il cristianesimo è la vita in Cristo. E il Cristo non si ferma mai alla negazione, al rifiuto. Siamo noi che abbiamo caricato l’uomo di tanti fardelli! Gesù non dice mai: ‘Non fare, non si deve fare’. Il cristianesimo non è fatto di proibizioni: è vita, fuoco, creazione, illuminazione”.


La venuta di Gesù è anche giudiziale: la sua presenza sollecita una presa di posizione e una scelta e così essa può provocare divisioni: Gesù, infatti, è “segno di contraddizione” (Lc 2,34). La famiglia stessa non sarà esente da tale intervento giudiziale e dalle separazioni che esso opera (cf. Lc 12,51-53). L’urgenza del Regno porta a relativizzare anche l’istituto famigliare che viene traversato e lacerato, come da spada, dalla parola di Gesù che chiede di avere per lui un amore prioritario e di mettere al primo posto le esigenze del Regno (Lc 14,25-26).

E l’oggi storico deve essere giudicato a partire dalla novità escatologica introdotta da Gesù: il Regno di Dio si è fatto vicino. Prima ancora di riconoscere “i segni dei tempi” si tratta di riconoscere il segno del tempo, il segno che il tempo stesso è diventato da quando ha accolto l’evento dell’incarnazione. Esso è occasione di conversione, appello a conversione. Segnato dall’irruzione del Regno, ormai il tempo della storia e dell’esistenza personale di ciascuno è kairòs, momento propizio per la conversione (cf. Lc 13,1-5). È luogo di incontro possibile con il Signore che viene.

Riflessioni sulle letture
di
LUCIANO MANICARDI

Comunità di Bose
Eucaristia e Parola
Testi per le celebrazioni eucaristiche - Anno C
© 2009 Vita e Pensiero

 

XXVI domingo do Tempo Comum

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29 setembro 2013
Reflexões sobre as leituras
de
LUCIANO MANICARDI
Escuta da Palavra de Deus contida nas Escrituras e acolhimento do Senhor que nos visita através dos mais pobres, são as ações para pôr em prática, aqui e agora, hoje, sobre a terra.

29 setembro 2013
Reflexões sobre as leituras
de
LUCIANO MANICARDI

Ano C

Am 6,1a.4-7; Sal 145; 1Tm 6,11-16; Lc 16,19-31

A injustiça ilustrada por um estilo de vida preocupado apenas com o bem-estar pessoal e insensível ao sofrimento e às necessidades dos pobres: é esta a denúncia do profeta Amós e o fundo da página evangélica. Dos textos nasce a pergunta: quem é o outro para mim? E entre os outros quem é o pobre, o último, o pária? Que responsabilidade assumo quando colocado diante deles, dos que necessitam que, com toda a sua miséria, são um grito que me pede ajuda e que me interpela? Mas os textos falam, também, do juízo que atingirá quem, vivendo no luxo e na ostentação da sua  riqueza, esquece inconsciente a humanidade do irmão pobre, entorpecendo também a própria humanidade. Juízo histórico em Amós (“irão deportados à frente dos cativos”: Am 6,7), juízo escatológico em Lucas (o rico encontrou-se "Na morada dos mortos, achando-se em tormentos": Lc 16,23), afirmando sempre que Deus não é indiferente ao mal e à injustiça mas que deles se vinga.

Se o nome do pobre mendicante é Lázaro (que significa “Deus ajuda”), o nome do rico não é mencionado; pelo contrário, é esvaziado da sua própria "riqueza", do seu significado: ele é simplesmente o “rico” (vv. 19.22). A vertigem a que pode levar a posse de bens arrisca a desprovir o rico de si próprio, esquecido do essencial, seduzido pelo muito das coisas que possui e que o iludem de escapar à morte. Fazer "todos os dias esplêndidos banquetes" significa fugir à sequência dos dias, à economia da sucessão semanal– fazer festa também aos dias úteis, entrar num excesso que está para além dos limites do quotidiano. O muito do rico impede-o de ver o muito pouco de Lázaro que, da violência da vida e da indiferença dos homens "jaz" à entrada de sua casa: sinal de uma contiguidade entre pobres à mesa dos ricos de que, todavia, são sadicamente e conscientemente excluídos, tanto na parábola de Lucas como na atualidade. A página Evangélica alerta-nos para um risco grave: que a presença dos pobres se torne habitual e não suscite mais escândalo ou indignação.  


 

A morte é um protagonista importante da parábola. Preciosa memória dos limites da aventura humana, ela é, muitas vezes, removida da nossa consciência devido a comportamentos que nos dão a ilusão da imortalidade. Possuir muitos bens, um estilo de vida luxuoso expresso na qualidade da roupa e nos banquetes diários sem partilhar, é uma tentativa sedutora e ilusória para escapar à angústia da morte. Por outro lado, a inevitabilidade da morte deveria ensinar algo a todas as criaturas humanas. Vivemos poucos dias nesta terra: porque não procurar o essencial, o que, verdadeiramente tem sentido? porque não procurar praticar a justiça e a partilha, o amor e a compaixão? porque não procurar o encontro e as relações?  

A cena surreal do diálogo entre o rico e Abraão que, diante dos tormentos que está a passar, lhe pede que envie Lázaro para que os seus irmãos mudem de vida, apresenta mais um motivo de interesse.  A resposta de Abraão sublinha o fato de que, em vida, pode ser demasiado tarde. É preciso viver cada momento como o "hoje de Deus". É preciso estar consciente de que o momento presente é a ocasião em que posso viver a plenitude do amor e da fidelidade ao Evangelho, é o momento em que me empenho na totalidade. Aderir ao hoje, ao momento presente, sem fugas para a frente e sem comportamentos que atordoem e façam evadir da realidade, é sabedoria.

Mas esta resposta recorda também que a fé não se fundamenta em milagres ou em acontecimentos extraordinários: “se algum dos mortos for ter com eles, hão-de arrepender-se” diz o rico. Abraão responde contrariando esta última ilusão: “Se não dão ouvidos a Moisés e aos Profetas, tão pouco se deixarão convencer, se alguém ressuscitar dentre os mortos” (Lc 16,31). Escuta da Palavra de Deus contida nas Escrituras e acolhimento do Senhor que nos visita através dos mais pobres, são as ações para pôr em prática, aqui e agora, hoje, sobre a terra. Realidades comuns, mas sobre as quais se joga o juízo final.

 

Reflexões sobre as leituras
de
LUCIANO MANICARDI

Comunidade de Bose
Eucaristia e Parola
Textos para as Celebrações Eucarísticas - Ano C
© 2009 Vita e Pensiero

XXIX domingo do Tempo Comum

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20 outubro 2013
Reflexões sobre as leituras
de
LUCIANO MANICARDI
A oração exige coragem. A coragem da fé que leva a não desistir, a não baixar os braços, a não dizer: "não serve para nada"

  20 outubro 2013
Reflexões sobre as leituras
de
LUCIANO MANICARDI

Ano C

Ex 17,8-13; Sal 120; 2Tm 3,14-4,2; Lc 18,1-8

A oração como luta e intercessão (I leitura); a oração insistente e que não é desprezível (Evangelho): este é o tema que relaciona a primeira leitura com o Evangelho. A oração é vista não como tarefa dos fortes, mas como exercício dos débeis: Moisés é ajudado a manter os braços erguidos em oração; já no Evangelho é uma pobre viúva que é a protagonista da oração insistente. Fracos que se tornam fortes pela fé e que perseveram na oração. A perseverança como verdade da oração e a oração como certificação da fé são elementos que enriquecem a catequese sobre a oração contida nos textos bíblicos deste domingo.

A imagem de Moisés com as mãos levantadas ao alto procurando a intercessão, ajudado por dois homens que lhe sustentam os braços, cada vez mais pesados, à medida que o tempo passa, é uma bela imagem do esforço em que consiste a oração. A oração é um esforço, é opus (obra), trabalho e como todos os trabalhos exige cansa o corpo e o espírito. Mas aquela imagem indica também um outro aspeto da dimensão comunitária da oração. Ser comunidade cristã não é apenas ser convocado a rezar pelos outros, a interceder, mas também a pôr-se ao serviço da oração do outro. Apoiar-se e encorajar-se na fé e na oração é tarefa que compete a todos os crentes na comunidade cristã.

Um aspeto desta dificuldade da oração é o facto de ser quotidiana, ser perseverante, não ficar para depois. Aspeto que está expresso na parábola evangélica (cf. Lc 18,1). A preocupação de insistir na necessidade de rezar sempre, sem cessar, revela a situação da comunidade cristã a que se dirige Lucas: uma comunidade em que existe algum relaxamento da fé e da oração.


À distância de algumas décadas do tempo de Jesus, a comunidade conhece fenómenos de mundanidade da fé e de abandono (cf. Lc 8,13). Lucas adverte: abandonar a oração é a antecâmara para o abandono da fé. O passar do tempo é a grande prova da fé e da oração. A oração insistente faz da fé uma relação quotidiana com o Senhor. A fadiga de perseverar na oração é a fadiga de conceder tempo à oração, e o tempo é a substância da vida.

Rezar é dar a vida pelo Senhor. A oração comporta um confronto com a morte e, por isso, é muitas vezes difícil; rezando, não "fazemos" nada, não "produzimos", vemo-nos estéreis e ineficazes. Mas é esse o espaço e o tempo que predispomos para que o Senhor faça qualquer coisa de nós.
As palavras de Jesus encerram ainda um ensinamento sobre a dimensão escatológica da oração. À questão colocada pelos fariseus "Quando virá o Reino de Deus?" (Lc 17,20), Jesus respondeu com o que já havia dito no capítulo anterior(cf. Lc 17,21-37), mas que agora completa com uma contra-pergunta: “Mas, quando o Filho do Homem voltar, encontrará a fé sobre a terra?” (Lc 18,8).


Não se trata de colocar questões sobre a vinda final, mas de acolher a vinda final do Senhor como uma questão que interpela os cristãos sobre a fé. A nós que, muitas vezes, nos perguntamos: “Onde está Deus?”, “Onde está a promessa da Vinda do Senhor?” (2Pe 3,4), Ele responde-nos pedindo-nos contas da nossa fé: “Onde está a Vossa fé?” (Lc 8,25). A vinda do Senhor não é um tema de abstratas especulações teológicas, mas uma realidade de fé para viver e experimentar, como espera e desejo, na oração.

A oração da viúva que pede justiça sublinha a audácia e a determinação da oração. A oração não se envergonha de pedir, não hesita em insistir, não cessa de bater à porta, não teme importunar. A oração exige coragem. A coragem da fé que leva a não desistir, a não baixar os braços, a não dizer: "não serve para nada".
Oração e fé relacionam-se de forma inseparável: crer significa rezar. E se nós podemos rezar graças a uma fé viva é verdade, também, que a nossa fé permanece viva graças à oração.

Reflexões sobre as leituras
de
LUCIANO MANICARDI

Comunidade de Bose
Eucaristia e Parola
Textos para as Celebrações Eucarísticas - Ano C
© 2009 Vita e Pensiero

 

XXVII domingo do Tempo Comum

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6 outubro 2013
Reflexões sobre as leituras
de
LUCIANO MANICARDI
A autoridade na igreja deve ser crivada pela humildade e pelo serviço, para que não se exprima como poder e assim obscureça a supremacia, única, de Jesus       

Ano C

Hab 1,2-3; 2,2-4; Sal 94; 2Tm 1,6-8.13-14; Lc 17,5-10

A é o tema da primeira leitura e do Evangelho. Na primeira leitura a fé é posta à prova pelo silêncio e pela inação de Deus e desafiada a transformar-se numa espera perseverante e fiel à promessa de Deus. Também em tempos difíceis, o justo encontrará vida graças à fé. No Evangelho a fé é tratada como uma realidade qualitativa, não quantificável, caracterizada pelo abandono fiel do servo ao seu Senhor

Diante das palavras de Jesus que falam em perdoar sete vezes ao dia ao irmão arrependido (cf. Lc 17,3-4), os apóstolos pedem a Jesus que lhes aumente a fé (cf. Lc 17,5). Mostram ter compreendido que o perdão não é, apenas, um gesto ético, mas é um vento escatológico, dom do Espírito Santo, erupção do Reino de Deus na vida dos homens. Mostram ter compreendido que a comunhão na comunidade cristã - comunhão a que é essencial o perdão - só é possível graças à fé, em deixar reinar o poder de Deus. Pedindo a fé, mostram, também, ter compreendido que a é dom que encontra no próprio Senhor a sua origem e a sua fonte, que não somos donos nem podemos impor a fé - pessoal e dos outros - mas, apenas, acolhê-la com gratidão e nutri-la com oração. Mostram ainda que, para eles, "apóstolos" (Lc 17,5), os doze escolhidos diretamente por Jesus, a fé não é uma realidade óbvia. Pelo contrário, a fé é sempre insuficiente e os discípulos são sempre "homens de pouca fé", ou seja, incapazes daquela relação de abandono pleno e fiel, gratuito e convicto, humilde e perseverante, doce e robusto, numa palavra, daquele amor que está na base da força da fé.  

A fé, e nada mais, está na base da autoridade dos apóstolos:  isto mesmo é sublinhado por Lucas com a nota de que, se tivessem fé do tamanho de um grão de mostarda, poderiam fazer com que todos lhes "obedecessem" (verbo hypakoúein: Lc 17,6) inclusive uma árvore, apesar da ordem tonta que lhe foi dada. Só a fé consente ao pregador, ao missionário, ao apóstolo de fazer-se eco – com a própria ação e a própria palavra – da ação da palavra de Deus e de suscitar no destinatário a adesão teologal, que não é pertença do próprio.


 

Na parábola do vv. 7-10 Jesus compara os apóstolos aos patrões que têm servos e depois diretamente aos servos, ainda para mais inúteis. A autoridade na igreja deve ser entendida como serviço e excluir qualquer relação de força e domínio. A passagem de “ter um servo” (cf. Lc 17,7) a “ser um servo” (cf. Lc 17,10) é significativa: na comunidade cristã não existem patrões e servos, existem irmãos que são servos do único Senhor e mestre (cf. Mt 23,8-10). A autoridade na igreja deve ser crivada pela humildade e pelo serviço para que não se exprima como poder e obscureça a supremacia, única, de Jesus: “nem o enviado (é) mais do que Aquele que o envia”, disse Jesus aos seus discípulos logo depois de lhes ter lavado os pés na última ceia (Jo 13,16).

Eis pois a situação, paradoxal mas salvífica, em que é colocado o missionário, o apóstolo na comunidade cristã: a sua autoridade está em ser enviado como servo (Lc 17,7; At 20,19), para trabalhar no campo do Senhor (1Cor 3,5 ss.), para lavrar (Lc 17,7; 1Cor 9,10) ou pastorear (Lc 17,7; At 20,28; 1Cor 9,7). A sua autoridade repousa na obediência à Palavra do Senhor (Lc 17,10). E eis a consciência com que o servo é chamado a exercer o seu ministério: a inutilidade. Não que o que faça seja inútil, mas a consciência que anima o apóstolo é libertadora e livre quando ele cumpre tudo sem se destacar, remetendo o que faz para o Senhor que está na origem do seu chamamento e de cada fruto apostólico. Paulo, depois de ter recordado ter "servido o Senhor com toda a humildade" (At 20,19), diz: “a meus olhos, a vida não tem valor algum; basta-me poder concluir a minha carreira e cumprir a missão que recebi do Senhor Jesus” (At 20,24).

Reflexões sobre as leituras
de
LUCIANO MANICARDI

Comunidade de Bose
Eucaristia e Parola
Textos para as Celebrações Eucarísticas - Ano C
© 2009 Vita e Pensiero

 

XXV domingo do Tempo Comum

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22 setembro 2013
Reflexões sobre as leituras
de
LUCIANO MANICARDI
Jesus não demoniza o dinheiro mas adverte do poder que ele exerce: o homem diviniza-o

22 setembro 2013
Reflexões sobre as leituras
de
LUCIANO MANICARDI

Ano C

Am 8,4-7; Sal 112; 1Tm 2,1-8; Lc 16,1-13

Elemento comum às leituras é a denúncia do poder de sedução do dinheiro e da riqueza que leva Jesus a falar dele como de uma entidade divinizada (Mammona) que se opõe ao único e verdadeiro Deus (Evangelho) e que conduz o profeta Amós a desmascarar a obsessiva ganância de latifundiários e comerciantes que se mostram insensíveis ao sábado impondo um limite aos seus trabalhos (I leitura).    

A ambiguidade do dinheiro e a sua capacidade de perverter o coração do homem aparece também na parábola em que Jesus apresenta como modelo o "administrador desonesto": modelo, obviamente, não pela sua desonestidade, mas porque, no momento em que é demitido, agiu com esperteza (cf. Lc 16,8). No coração desta página evangélica está a decisão radical a que o homem é chamado para entrar no Reino de Deus. Esta decisão exige qualidades que são exemplificadas no administrador que reagiu de forma decidida quando a sua má-gestão foi descoberta.

No momento de crise, o administrador demonstra "poder de encaixe", de aceitação da realidade, da nova situação que ele próprio criara (“Que farei, pois o meu senhor vai tirar-me a administração?": Lc 16,3);reconhece os seus limites, as suas incapacidades e impotências (“cavar não posso; de mendigar tenho vergonha”: Lc 16,3); reconhece decisões e escolhas, preparando o que se seguirá: ele age cumprindo gestos que lhe perspetivam um futuro: (cf. Lc 16,4-7). A exemplaridade deste homem corrupto não está, portanto, em agir sem escrúpulos, mas em discernir de forma realista a situação crítica em que se encontra e em saber reagir a essa mesma situação. Também para Jesus este é "um filho deste mundo" (Lc 16,8)! A questão de Jesus, no entanto, diz respeito aos filhos da luz: como é que não sabem discernir a hora, a proximidade do reino e reagir de imediato com gestos de conversão, essenciais à salvação?      


Jesus não demoniza o dinheiro mas adverte do poder que ele exerce: o homem diviniza-o. “Mammona” é uma palavra com a raiz em ’aman que significa “crer”. O Evangelho denuncia a sedução do coração humano e a perversão da verdade do homem que o dinheiro pode exercitar. Podemos dizer que esse é o ídolo por excelência: no dinheiro “acredita-se”, o mercado nutre-se de "fé”. E nós descobrimos a nossa insipiência quando pensamos que aquele mero artefacto que é o dinheiro (é o homem que “cunha a moeda”) de meio se transforma em fim, de servo torna-se dono; acreditamos que o manipulamos mas é ele que nos manipula, mais, ele determina os nossos ritmos diários empurrando-nos para uma frenética corrida para acumular cada vez mais.

Por isso Jesus distingue entre “servir a Deus e servir o dinheiro”: “Nenhum servo pode … Não podeis” (Lc 16,13). Esta palavra permanece como uma espinha encravada para os cristãos e para as igrejas ricas numa sociedade opulenta. O Evangelho não dá receitas, mas a questão ressoa: a abundância de meios económicos e a força dos meios culturais não torna ilusória a sequela Christi? E não a torna também pouco credível?      

Partilhar e dar aos pobres são formas cristãs de usar os bens, sugeridas no Evangelho: “É que os filhos deste mundo são mais sagazes que os filhos da luz, no trato com os seus semelhantes" (Lc 16,9). Ou seja: dai aos pobres, aos amigos de Deus, e esses, portadores do juízo escatológico (cf. Mt 25,31 ss.), poderão acolher-vos na morada eterna. O que não aconteceu ao rico que não mexeu um dedo por Lázaro: agora, depois da morte, com Lázaro no seio de Abraão, o rico está atormentado e os dois estão separados por um abismo intransponível (cf. Lc 16,19-31). 

As palavras de Jesus sobre a fidelidade (cf. Lc 16,10-12) revelam que existe uma hierarquia de realidades com diferentes valores: há um “pouco” e há um “muito”, há uma riqueza material e há uma riqueza verdadeira, não quantificável e que consiste na verdade pessoal. Uma riqueza feita de humanidade, verdadeiro capital que Deus criador deu ao homem à imagem e semelhança d'Ele.

Reflexões sobre as leituras
de
LUCIANO MANICARDI

Comunidade de Bose
Eucaristia e Parola
Textos para as Celebrações Eucarísticas - Ano C
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